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terça-feira, 4 de outubro de 2011

Homem consumo

É o paradoxo das nossas vidas. Nunca tivemos tanta liberdade para moldar nossas vida do modo como queremos, mas nunca estivemos sujeitos a tantas pressões nos dizendo o que é desejável.
David RowanThe Times, 6 de setembro de 2003

Parece estar suficientemente demonstrado que, quando o ocidente abandonou a noção (antes bastante popular) de que a pobreza é uma virtude, foi com a ardente aprovação da Reforma Protestante – e provavelmente por direta inspiração dela. O que ainda não sabemos avaliar são todos os resultados que essa mudança de paradigma lançou futuro adentro. Algumas dessas flechas estão apenas começando a nos atingir; outras já nos atravessaram as pernas e o coração.
Mesmo antes da era da mecanização, alguns observadores, avaliando essa formidável transição, olharam com nostalgia para o passado e com temor para o futuro. Hoje em dia discute-se se um mundo que não acredita em Deus irá manter-se abraçado à ética; naquela época discutia-se se um mundo que acredita na ambição e no lucro pode alegar estar abraçado a Deus.
Quando a revolução industrial era menos do que uma promessa e a era da informação menos do que um sonho, esses sujeitos enxergavam o que hoje deveria ser visto como lugar-comum: que a ganância, liberta de suas cadeias ancestrais e alimentada pela tecnologia, poderia se mostrar a chave da destruição do mundo e da mais fatal cegueira da história da humanidade.
Em seu A Vida de Fausto, de 1791, Friedrich Maximilian Klinger coloca na boca de Satã algumas dessas profecias:
Em breve, o perigoso veneno da sabedoria e da ciência contaminará a todos! Sua fantasia inflamar-se-á para criar milhares de novas necessidades. Loucura, dúvida e intranquilidade e novas necessidades alastrar-se-ão, e eu duvido que meu terrível reino possa abarcar todos aqueles que serão contaminados por esse veneno sedutor.
Este é Novalis (1772-1801), escrevendo mais ou menos na mesma época, em seu A Cristandade, ou a Europa:
Uma prolongada associação de homens diminui suas inclinações para a sua fé e para sua raça, e habitua-os a aplicar seus pensamentos e esforços à tarefa de adquirir conforto material. As necessidades, bem como as artes de satisfazê-las, tornam-se mais complexas; o ambicioso requer tanto tempo para conhecer e ganhar habilidade nessas artes que não tem mais tempo para a silenciosa reunião de ideias e a atenta consideração do mundo interior. Se um conflito surge, seu interesse presente lhe parece representar mais; desse modo fenecem as belas flores de sua juventude, da fé e do amor, dando lugar aos frutos amargos do conhecimento e da possessão.
Acho especialmente relevante e lúcido que esses autores tenham entendido, de seu posto há duzentos anos, de onde não tinham como saber o que hoje sabemos, que o segredo da vitória final da ganância residiria na manipulação das necessidades.
Novalis enxergou que necessidades mais complexas requerem mais recursos e mais tempos para serem satisfeitas. O mero tempo necessário para aprendermos a nos tornar “produtivos” e a nos mantermos assim pode estar sequestrando partes muito legítimas da existência – porções e pausas de vida que perdemos inteiramente de vista enquanto corremos atrás do vento. Antes dos engarrafamentos e dos shopping centers, Novalis entreviu que a tarefa de nos tornarmos consumidores eficazes pode estar nos subtraindo o privilégio e a tarefa mais essencial de viver.
Klinger olhou ainda mais longe, e na mesma página diz duas vezes que a chave da manipulação e da ruína da humanidade residirá na “criação de necessidades”. Antes da televisão de tela plana e do iPad, ele entendeu que o homem abraçará os pés do diabo para não ter de resistir ao apelo de “novas necessidades”.
Essas profecias falam de um momento no futuro em que os homens finalmente dominariam a arte de transformar o que é supérfluo em necessidade. Essa hora, naturalmente, já chegou. Mais do que Novalis jamais poderia sonhar, aprendemos a validar nossa humanidade através daquilo que consumimos. E, numa vertigem que levaria Klinger à loucura, a subsistência dos sistemas do mundo absolutamente depende da criação e da divulgação insaciável de novas necessidades.
Até mais ou menos recentemente, a durabilidade de um produto era encarada como valor: os produtos eram feitos e comprados para durar. Esse paradigma, no entanto, não funcionava a serviço de um capitalismo que depende do consumo sem pausa para sobreviver. As indústrias aprenderam não apenas a lançar novos produtos (coisa que fizeram desde o começo), mas a encaixá-los num rigoroso programa de obsolescência programada. Mesmo quando compradas para durar, as coisas passaram a ser feitas para não durar. Hoje em dia um produto apresenta falhas técnicas muito antes do que já foi considerado aceitável, e o custo do conserto e da manutenção se mostra muitas vezes maior do que o custo da aquisição de um produto novo. O verdadeiramente notável nessa equação é que aprendemos a deixar de ficar indignados com isso, devidamente aplacados pelas vantagens anunciadas do novo produto-necessidade.
O último estágio da transição de valor do durável para o instantâneo ocorreu quando as indústrias deixaram de ocultar o seu projeto de obsolescência programada e passaram a anunciá-lo aos quatro ventos como evidência de compromisso com a inovação. Hoje não há quem compre um equipamento eletrônico desconhecendo que daqui a um dia ou dois, talvez antes, um equipamento com mais botões estará ocupando o mesmo lugar na estante. Não há quem compre um iPhone 4 sem saber que este ano ainda deve sair o 5. A perspectiva da obsolescência deixou de ser um problema e passou a ser um componente legítimo do produto, um de seus mais irresistíveis atrativos.

E, como diz a piada, com esses dez por cento nós vamos vivendo. Os profetas continuam falando e sendo solenemente ignorados, porque ouvi-los seria morder a mão que nos alimenta – ou mais propriamente, seria deixar de morder a mão que estamos consumindo: a nossa própria. Ivan Illich explica além da dúvidaque nos tornamos tão habituados às soluções da tecnologia que ficamos cegos ao fato de que estamos sendo aprisionados por elas. As soluções que deveriam tornar a vida mais fácil, bem como a obediente satisfação das necessidades novas e complexas que nos vende o sistema, pouco fizeram além de criar novos problemas, e crônicos. Entre eles estão as chamadas “doenças da opulência”, invenções do nosso sucesso em canalizar o nosso modo de vida de modo a perseguir a prosperidade – coisas como obesidade, depressão, ansiedade, hipertensão e diabetes. Essas novas doenças aplacamos com novos remédios, é claro, porque seria pedir demais que nos rebaixássemos a mudar de vida. Para que o sistema continue rodando, nada nem ninguém – nem nossa própria qualidade de vida nem o esgotamento dos recursos do mundo – deve ser considerado motivo legítimo para atrasarmos o relógio e voltarmos ao ritmo das meras necessidades, as antigas.

Onde o supérfluo é visto como necessário, o próprio conceito de necessidade é sequestrado e esvaziado para sempre. Havia uma coisa importante que era necessário eu dizer para concluir, mas dizê-lo neste mundo não faz sentido.

terça-feira, 12 de julho de 2011

Do berço à sepultura: a nostalgia do comunismo e o capitalismo em sua forma de sempre

Numa entrevista para o The New York Herald em 1921, Lenin afirma1:
Algumas pessoas nos Estados Unidos chegaram à conclusão de que os bolcheviques são uma panelinha de homens muito malvados que exerce tirania sobre um vasto número de pessoas muito inteligentes que formariam um governo admirável entre eles mesmos no momento em que o regime bolchevique fosse derrubado.
O admirável sobre essa propaganda anti-comunista é quão tediosamente similar ela tem se mantido ao longo de quase 90 anos, e quão difundida ela permanece. De qualquer modo, visto que essas panelinhas “de homens muito malvados” foram agora derrubadas e substituídas pelos “governos admiráveis” de “pessoas muito inteligentes”, seria o caso de examinar as condições dos países “pós-comunistas” da Europa oriental.
Num comentário em minha postagem anterior, Marx, satanista?, Tamara chamou-me a atenção para uma pesquisa recente feita na Romênia:
Só 27 por cento dos romenos afirmam que o comunismo era “errado”, enquanto 47 por cento responderam que “era uma boa ideia, mas mal aplicada” e 14 por cento acham que foi “uma boa ideia e bem aplicada”. Impressionantes 78 por cento afirmam que nem eles nem suas famílias jamais sofreram debaixo do comunismo.
E tudo isso tomou lugar sob aquele ditador perverso e odiado, Nikolai Ceausescu.
Passemos então para a Bulgária, um lugar que conheço muito bem. Num livro recente, Lost in Transition: Ethnographies of Everyday Life after Communism/Perdido na transição: Etnografias do cotidiano depois do comunismo, Kristen Ghodsee observa uma crescente nostalgia pela era comunista. Mas por quê, especialmente em se tratando de um estado supostamente stalinista? 
«O que diziam do capitalismo era verdade.»
Quando o capitalismo foi repentinamente imposto em 1989, uns poucos estrangeiros com boas conexões e uma nova classe de oligarcas e criminosos locais assumiram os ativos que haviam pertencido anteriormente ao estado – aqueles que chamaríamos de “empresários”. A gente comum sentiu-se roubada, e muitos perderam seus empregos justamente no momento em que o sistema previdenciário do estado era desmantelado. E será que isso só ocorre na Bulgária? De forma alguma: é o capitalismo em sua forma de sempre.

Tenha em mente que esses são estados que eram supostamente modelos de uma ditadura insuportavelmente repressiva. Não estamos falando, por exemplo, da Iugoslávia, que era com frequência tomada como exemplo de um comunismo mais humano e viável. E enquanto falamos da Iugoslávia: quatro em cada cinco pessoas com as quais falo sobre “a antiga I” me dizem que ela funcionava muito bem.
Prevejo que esta seria a brecha para uma resposta bem lubrificada da direita:
“Claro, é natural que os mais velhos tenham saudade das ditaduras e autocracias, porque essas lhes forneciam algumas certezas na vida, por mais difícil que fosse a situação. Mas podemos com segurança ignorar essas debéis nostalgias dos mais velhos…”
Papo-furado. Conheci russos jovens, nascidos depois ou logo antes de 1989, que erguem copos e brindam à antiga União Soviética. Acrescente-se a isso – como informa-me um colega de Kiev depois de muita pesquisa – que apenas um, talvez dois, dos países do bloco oriental chegaram a alcançar o PIB de 1989 – e isso depois de mais de duas décadas de capitalismo.
Talvez, apenas talvez, as pessoas encontrem de fato valor em coisas como cobertura de saúde e educação universais, desemprego zero, dias de trabalho mais curtos e tempo de sobra para encontrar-se e conversar. Talvez, apenas talvez, economias planejadas sejam de fato melhores. Até mesmo o odiado (na Europa oriental) e ex-anti-comunista Zizek parece concluir que o comunismo era superior. Como ele coloca: tínhamos segurança do berço à sepultura, nunca levávamos nossos governantes a sério e tínhamos o Ocidente mítico com o qual sonhar.
Finalmente, há o que um amigo que morava num desses lugares me disse há algum tempo:
“Quando nos ensinavam sobre o capitalismo na escola, todos achávamos que ele não tinha como ser tão terrível quanto diziam. Achávamos que nossos professores estavam inventando tudo aquilo. Hoje, vivendo sob o capitalismo, entendo que o que eles diziam era verdade.