aN eDUCATION – ensaio
Débora do Prado Lisboa
Em nossa legislação a educação compreende os aspectos formativos advindos da vida familiar, a convivência humana, o trabalho e as manifestações culturais. Nossa formação se dá em mediação com o mundo físico e simbólico: somos seres culturais. Produzir a humanidade envolve identificar os elementos culturais que precisam ser assimilados pelos indivíduos, e, em termos de processos cognitivos, como se dá esta apropriação.
A discussão sobre quais seriam estes elementos culturais e como se dá o processo de humanização temos duas abordagens centrais a comportamentalista e a interacionista[1].
A concepção comportamentalista compreende o indivíduo como moldado e condicionado pelo meio, sendo que o meio social tem um caráter determinante na formação humana. A prática educativa pensada nesta perspectiva envolvia a repetição, o uso de reforçadores positivos e negativos (premiações, punição, competição, dentre outros), a memorização de procedimentos, processos e informações. Numa concepção mais adaptativa a educação é uma ação exercida pelas gerações adultas sobre as crianças que não estariam preparados para a vida social. Neste sentido existem certos números de estados físicos, intelectuais e morais consolidados na sociedade e cabe à educação suscitar e desenvolver no educando tal repertório cultural.
A cultura é concebida como saber enciclopédico e o homem um recipiente para acomodar dados empíricos, fatos ao acaso e desconectados da história, que seriam organizados no cérebro como colunas de um dicionário para poder então, a partir de algum evento ou estímulo, ser associado a uma resposta correta. Isto levava a formação de um intelectualismo flácido, incolor, acumuladora de fatos e saberes dissociados da vida.
Na perspectiva interacionista (ou cognitivista, ou sóciointeracionista, ou sóciohistórica) a cultura é progressivamente apropriada pelo indivíduo. Conhecemos as regras que governam as relações entre acontecimentos, objetos fenômenos do mundo real, bem como as regras para abstrair significados e gerar conceitos. Os significados que construímos a partir de nossas experiências são amadurecidos nas interações sociais e simbólicas e somos movidos cognitivamente (cogniti + ativamente) pela necessidade de saber, organizar e compreender o mundo físico e cultural.
Nascemos com reflexos simples (sugar, alcançar e agarrar) que se tornam complexos, ordenados e mais tarde, intencionais. Este processo envolve a criação de significados, de conceitos, o aperfeiçoamento de reflexos, estabelecemos relações, classificamos coisas, refinamos nosso pensamento pela linguagem, experiência ativa e interação com os outros. Procuramos, ativamente, compreender o sentido de nossa vida, trabalho e relações de afeto.
O conhecimento do mundo envolve entender como é a natureza e suas leis, concebendo este como o desenrolar dos esforços de muitos que ao longo da história que fizeram para criar a civilização que agora temos ( com todos as suas glórias e misérias).
A prática educativa dá uma grande importância à história da matéria, daquele saber que se propõe ensinar. Este modo de apresentar aos ouvintes a série de esforços, os erros e vitórias pelos quais passaram homens e mulheres para alcançar o atual conhecimento é muito mais educativa do que a exposição esquemática deste mesmo conhecimento.
Os atos educativos escolares permitem o acesso aos saberes historicamente construídos pela humanidade, e proporcionam oportunidades de aprendizagens através de técnicas de ensino considerando idade, estágio de desenvolvimento (para os piagetianos) ou nível de desenvolvimento (para os vygostianos) e, por fim, este saber deve dialogar com a vida, para ser significativo ao educando e ao educador.
Assim, a cultura não é um repertório de dados e informações. A cultura é organização de saberes sobre a natureza e suas leis, mas também de nossa natureza, enquanto humanos em formação e incompletude. A formação humana, a educação que humaniza proporciona a disciplina do eu. O educando tomando posse da própria personalidade, é a conquista de consciência superior pelo qual se consegue compreender o próprio valor histórico (o que sou no meio de tudo isso?).
O conhecimento sócio histórico não é apenas tratar conteúdos de forma interdisciplinar ou levar recortes de jornais para a sala de aula, envolve a reflexão sobre quem somos (o que me distingue?) é a construção de uma concepção de mundo criticamente coerente, entendendo que o início da elaboração crítica é a consciência daquilo que somos realmente. É o que nos ensina Guimarães Rosa “eu me inventei neste gosto de especular idéia”.
[1] A comportamentalista envolve as perspectivas behavioristas e neobehavioristas de Pavlov, Skinner, Watson, dentre outros e os cognitivistas Jerome Bruner, Jean Piaget e Lev Vygotsky.
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